O
Brasil, conforme Wehling (1994), no início do século XIX, ao cabo de três
séculos de colonização era um país de contrastes, de situações extremas: de um
lado o litoral e de outro o sertão, riqueza e pobreza, cultura popular sincrética
e ortodoxia filosófica e religiosa, de uma devassidão de costumes e de uma rigidez
impecável de comportamento, valores cristãos e de escravidão, mandonismo rural
e massa servil, economia exportadora e produção de autoconsumo, prevalecendo
ainda a contradição de um país dividido em múltiplas dicotomias. E uma delas, a
educação.
Lembremos
que a nação brasileira, conforme Monarcha (2009) era inculta, patriarca,
conservadora, oligárquica e acima de tudo, estava atrasada e doente. Na
verdade, esta foi a cara do Brasil na Primeira República, que sucede o período
de escravidão, da abolição e do tempo monárquico pós-independência.
Neste
atravessamento, os livres pensadores da época, com suas visões incertas de
mundo, livres da religião e cheios de métodos científicos veem no novo regime –
A República, como derradeira abolição dos privilégios de classe, cor, raça e
religião. Todavia não representou a alforria para a maioria ao ingresso na
vida, no mercado de trabalho e em especial na educação. Isto porque não houve esclarecimento
e conquista das massas humanas, sob os princípios das luzes e virtudes que por
sinal foram a euforia da aurora da Primeira República, mas que, infelizmente esquecida
e apagadas as luzes e as virtudes postas de lado, em favor da
“[...] depravação dos costumes, à predominância dos vícios oligárquicos [...], à transformação da liberdade em licenciosidade, à instrução popular reduzida ao ler e escrever de poucos”. Na verdade, milhares de excluídos da alfabetização.
“[...] depravação dos costumes, à predominância dos vícios oligárquicos [...], à transformação da liberdade em licenciosidade, à instrução popular reduzida ao ler e escrever de poucos”. Na verdade, milhares de excluídos da alfabetização.
E o
Estado-República? Após treze anos, conforme Monarcha (2009), o governo nada fez
para ensinar o povo a ler e escrever. De repente o governo acorda e se depara com
a possível ruína da nação, das elites e do povo, pois o ímpeto modernizador
republicano se perderá. Sem povo não existe nação e não temos povo no Brasil,
porque não temos educação nacional organizada.
A intervenção ou medicação para esta crise foi indicada em 1927, na 1ª Conferência
Nacional de Educação, no qual profissionais especialmente do campo da saúde e
doall, visam a higienização do povo através do saneamento do meio físico,
social e moral eliminando a “doença endêmica multiforme e a ignorância do
povo”. O povo é inculto e está doente! Acreditem, a educação e a saúde são o
elixir com direito a bula que deverá higienizar e educar o povo. Tomando, lendo
e seguindo à risca a bula o povo terá acesso à riqueza, ao progresso, ao civismo,
ao respeito e moralidade tão desejados ao povo ou do povo para alguém? Conforme
Bomeny, “O grande problema do Brasil, o analfabetismo de praticamente 80% de
sua população, aparece como uma condenação ao projeto republicano”.
Essa
citação apresenta um quadro, não tão confiável em termos de dados conforme
Bomeny (2001), mas delata a instabilidade educacional e política da nação no
início do século XX. Para corrigir tal distorção, houve um empenho nacional
pela alfabetização em massa. “O remédio parecia milagroso: alfabetizando a
população, corrigiam-se de pronto todas as mazelas que afetavam a sociedade
brasileira em sua expressiva maioria”.
Na
verdade, vigorou o princípio da ciência positivista com caráter liberal, como
direção essencial para instaurar o progresso, a inovação no país. Um destes
movimentos foi chamado de Escola Nova, tendo como base Anísio Teixeira e
organizado por intelectuais inspirados nas ideias político- -filosóficas de
igualdade entre os homens e do direito de todos à educação. “O movimento via na
educação integral vinculada a um sistema estatal de ensino público, livre e aberto,
como sendo capaz de modernizar o homem brasileiro, e de transformar essa
espécie de “Jeca Tatu” em um sujeito laborioso, disciplinado, saudável e
produtivo”.
Devemos
considerar que esta força intelectual (1910- 1935), desejava pela educação,
salvar o Brasil do estrago causado por uma política educacional elitista,
responsável pelos índices de analfabetismo, bem como pela doença que se
alastrou sobre a nação. Nesta perspectiva, os ideais para a renovação da
educação foram influenciados em grande parte pela calorosa “conversão” de
Anísio Teixeira no movimento educacional norte-americano (pragmatismo), pelo qual
o aprendizado ocorre pela capacidade de observação, experimentação do aluno
tendo como orientador, ou facilitador o professor treinado para este fim.
O
movimento reformador queria ver contemplado as suas demandas político
pedagógicas por meio de um sistema nacional de educação, bem como definir um
programa educacional para o país. Houve muitas discussões e participações de
segmentos. A Igreja acaba participando da discussão na tentativa de garantir
seus interesses e territórios enquanto formadora de mentes e de condutas. Já,
os educadores reformistas que elaboraram em 1932 o Manifesto da Educação Nova,
defendendo a democratização da educação - escola pública gratuita e laica.
Em contrapartida, outro movimento buscava estabelecer a proposta de Fernando
Azevedo, que tem como base a distinção clara entre educação para elite,
enquanto civilizadora e, a educação para a massa, enquanto força instintiva e
afetiva. As discussões se estenderam, e os pioneiros são acusados de
partidários de ideais contrários aos interessesda nação. O interessante é que
este grupo objetivava ser reconhecido como base para uma sociedade capitalista,
liberal e de livre-mercado.
Todavia,
no pós 1930, alguns interesses educacionais da nação foram reclamados na
Reforma de Capanema, e houve a retomada das campanhas sanitaristas, que
viabilizaram as Reformas no Ensino Secundário tendo como base as orientações
humanistas de caráter elitista; criação do Sistema de Ensino Profissional
(Senai, Sesi, Senac, Sesc) direcionado ao povo visando formar mão-de-obra
qualificada e, Reforma Universitária objetivando um padrão nacional de
organização. Em suma, criados para incorporar a massa inculta ao mercado de trabalho
e este efeito permanece até hoje.
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